terça-feira, 23 de março de 2010



Pousa a mão na minha testa

-Não te doas meu silêncio
Estou cansado de todas as palavras
Não sabes que te amo?
-Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável
O sentido da única palavra essencial
-Amor

(Manoel Bandeira)

Aparição Amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pela, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
a aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Estrada para Ítaca

Quando você iniciar sua jornada para ítaca,
Reze para que a estrada seja longa,
Cheia de aventura, cheia de conhecimento,
Não tema os Lestrigonianos
E os Ciclopes e a fúria de Poseidon.
Você nunca encontrará tais coisas em seu caminho,
Se os seus pensamentos permanecerem nobres,
Se uma bela emoção tocar seu corpo e seu espírito.
Você nunca encontrará os Lestrigonianos,
Os Ciclopes e a maldade de Poseidon,
Se você não leva-los dentro de sua alma,
Se sua alma não invocá-los por você.
Então reze para que a estrada seja longa.
Que as manhãs de verão sejam muitas,
Que você entre em portas vistas pela primeira vez
Com muito prazer, com muita alegria!
Pare nos mercados Fenícios,
E compre boas mercadorias,
Pérolas e corais, âmbar e madeira de lei,
E perfumes finos de toda marca,
Compre quanto perfume quanto você puder;
Visite hóspedes de cidades Egípcias,
Para aprender e aprender daqueles que têm conhecimento.
Sempre mantenha Ítaca fixa em sua alma.
Chegar lá é o seu último objetivo.
Mas não apresse a viagem de maneira alguma.
É melhor deixá-la durar por longos anos;
E mesmo ancorar numa ilha quando você estiver velho,
Com a riqueza que você adquiriu no caminho,
Não esperando que Ítaca oferecerá riquezas para você.
Ítaca forneceu a você a linda viagem.
Sem ela você nunca teria pegado a estrada.
Mas ela não tem mais nada a dar para você.
E se você achá-la pobre, Ítaca não terá enganado você.
Com a Grande Sabedoria que você adquiriu, com tanta experiência,
Você deve certamente ter entendido por fim o que Ítaca significa.

C. P. Cavafy
(Poema Grego)